Era setembro de 2008. O banco Lehman Brothers havia colapsado dias antes. O mundo financeiro estava em pânico. Nesse exato momento, Warren Buffett — o homem que havia construído a maior fortuna do planeta comprando ativos que outros não conseguiam enxergar — decidiu apostar US$230 milhões numa empresa que a maioria dos ocidentais nunca havia ouvido falar.

A empresa se chamava BYD. Fabricava baterias em Shenzhen, China, e havia decidido, alguns anos antes, entrar no mercado automobilístico. Não era uma aposta óbvia. Era, na verdade, uma aposta que Buffett sequer teria feito sozinho.

A aposta que Charlie Munger convenceu Buffett a fazer

A história começa com Charlie Munger, sócio de décadas de Buffett e um dos maiores investidores do século XX. Munger havia estudado a BYD e o seu fundador, Wang Chuanfu, e ficou tão impressionado que usou uma das comparações mais fortes de sua carreira para descrever o que viu.

"Wang Chuanfu é uma combinação de Thomas Edison e Jack Welch. Ele pode fazer qualquer coisa que um engenheiro humano seja capaz de fazer, e ele é um gestor de primeira linha."

Munger convenceu Buffett. A Berkshire Hathaway adquiriu 225 milhões de ações da BYD por US$230 milhões — o equivalente a 10% da empresa na época. Era uma aposta modesta para os padrões da Berkshire. Mas foi suficiente para mudar a história.

Quem é Wang Chuanfu — e por que importa

Para entender o que Buffett e Munger viram, é preciso conhecer o fundador da empresa que eles apostaram.

Wang Chuanfu nasceu numa família pobre da China rural. Ficou órfão ainda criança e foi criado por irmãos mais velhos. Estudou química e, em 1995, com cerca de US$300 mil levantados junto a primos e amigos, fundou a BYD para fabricar baterias recarregáveis.

O insight inicial era simples mas poderoso: as baterias que as empresas japonesas fabricavam com máquinas caríssimas podiam ser produzidas com trabalho humano qualificado, a uma fração do custo. A BYD cresceu rapidamente e se tornou uma das maiores fabricantes de baterias do mundo.

Em 2003, Wang fez uma jogada que deixou o mercado perplexo: comprou uma montadora de automóveis falida. Analistas riram. A BYD não sabia nada de carros. Dois anos depois, a empresa lançava seus primeiros modelos.

Em 2008, quando Buffett entrou, a BYD estava desenvolvendo o e6 — um dos primeiros carros elétricos produzidos em escala comercial. Enquanto a Tesla lançava o Roadster para o mercado premium, a BYD apostava num carro elétrico acessível para o mercado de massa. Eram visões opostas do mesmo futuro.

Os números do investimento histórico
Valor investido (2008) US$ 230 milhões
Participação adquirida 10% da empresa
Valor da posição no pico (2022) US$ 9 bilhões
Valorização total das ações +3.890%
Lucro estimado ao sair ≈ US$ 7 bilhões
Anos de investimento 17 anos (2008–2025)

O que aconteceu nos 17 anos seguintes

Por mais de uma década, o investimento ficou relativamente quieto. A BYD crescia, mas o mercado de veículos elétricos ainda era nicho. A maioria dos analistas ocidentais ignorava a empresa. Era uma aposta de longo prazo num mercado que ainda não existia de verdade.

A virada começou em 2020, quando a BYD lançou a Blade Battery — uma bateria de fosfato de ferro e lítio com vantagens significativas em segurança, durabilidade e custo. A tecnologia foi um divisor de águas. As vendas explodiram nos anos seguintes.

Em 2022, a posição da Berkshire na BYD chegou a valer US$9 bilhões. Buffett começou a vender naquele ano — não porque a BYD havia deixado de ser boa empresa, mas porque o retorno já havia superado qualquer expectativa razoável e outras oportunidades chamavam. Ao longo de três anos, foi reduzindo a participação até zerá-la completamente em 2025.

O lucro total estimado: cerca de US$7 bilhões sobre um investimento inicial de US$230 milhões. Uma multiplicação de aproximadamente 30 vezes o capital.

O que Buffett disse ao sair

Em entrevista à CNBC em 2023, enquanto reduzia a posição, Buffett foi claro: a BYD era uma empresa "extraordinária" comandada por uma "pessoa extraordinária". Mas ele havia encontrado "coisas melhores para fazer com o dinheiro". Sem drama, sem crítica — apenas a lógica fria de um investidor que sabe quando o ciclo se encerrou.

A BYD respondeu com classe. Li Yunfei, gerente de marca da empresa, publicou nas redes sociais um agradecimento público pelos "17 anos de investimento, apoio e companhia".


Por que essa história importa para o investidor brasileiro hoje

A história de Buffett e BYD não é só sobre um homem rico ficando mais rico. É um estudo de caso sobre o que acontece quando você identifica uma transição estrutural — e tem paciência para esperar que o mercado perceba o que você já viu.

Em 2008, o mercado de veículos elétricos era experimental. Quem apostava nele era considerado otimista demais. Buffett não estava apostando no curto prazo — estava apostando na direção inevitável do transporte mundial, num fundador com capacidade de execução fora do comum, e numa empresa que fabricava o componente mais crítico da transição energética: a bateria.

17 anos depois, a BYD é a maior produtora de veículos elétricos do mundo. Em 2024, a empresa produziu mais de 4 milhões de veículos e sua receita superou a da Tesla. Wang Chuanfu construiu, partindo de US$300 mil e uma fábrica de baterias, uma das empresas mais valiosas do planeta.

Existem hoje, no Brasil, apostas com o mesmo perfil — tecnologias em estágio inicial, num mercado que ainda não explodiu, com fundamentos sólidos e uma direção clara. Energia solar, hemp industrial, infraestrutura de recarga elétrica. Não são apostas para amanhã. São apostas para quem entende que o dinheiro inteligente se posiciona antes do mercado perceber.

"O preço que você paga determina seu retorno. Buffett pagou barato porque entrou antes de todo mundo. Essa janela ainda existe em alguns mercados. Mas não por muito tempo."

BYD no Brasil

A BYD adquiriu a antiga fábrica da Ford em Camaçari, Bahia, em 2023 — a maior planta automobilística do Nordeste. A produção local deve começar em escala em 2025, com pelo menos 150 mil veículos por ano. A empresa produz aproximadamente 70% dos componentes dos seus veículos internamente, o que dá uma vantagem de custo estrutural que concorrentes dificilmente conseguem replicar.