Em 2011, Elon Musk foi perguntado sobre a BYD numa entrevista. Ele riu. "Eles têm carros bons?" disse, sarcástico. A plateia riu junto. Para Musk e para a maioria do Ocidente, a BYD era uma montadora chinesa de segunda linha que ninguém levava a sério.
Treze anos depois, a BYD superou a Tesla em receita, em volume de produção e em presença global. O homem que construiu isso é Wang Chuanfu — e sua história começa muito antes de qualquer carro elétrico.
Uma infância que poderia ter terminado tudo
Wang Chuanfu nasceu em 8 de abril de 1966, em Wuwei, uma cidade pequena na província de Anhui — uma das mais pobres da China. Era o sexto de sete filhos de um casal de agricultores. O ano de seu nascimento foi marcado por desastres naturais que devastaram as colheitas da região.
Aos 13 anos, perdeu o pai. Dois anos depois, a mãe também faleceu. Quem assumiu a responsabilidade de sustentar a família foi o irmão mais velho — que tinha apenas 18 anos e acabara de se casar. Foi ele quem convenceu Wang a não abandonar os estudos para trabalhar.
Wang estudou química e física metalúrgica na Central South University, em Changsha — uma instituição de elite reconhecida pela pesquisa em baterias. Concluiu o mestrado no Instituto de Pesquisa de Metais Não Ferrosos de Pequim. Em 1993, entrou em uma empresa estatal de baterias ligada ao instituto. Tinha talento, progrediu rápido — e em dois anos já havia decidido que não queria trabalhar para ninguém.
1995: o empréstimo do primo e uma fábrica em Shenzhen
Wang viu uma oportunidade que outros não estavam vendo: a indústria de celulares estava explodindo, e as baterias que as empresas japonesas fabricavam com máquinas caríssimas podiam ser produzidas com mão de obra qualificada, a um custo muito menor. Era uma questão de engenharia e gestão — duas coisas que ele dominava.
Pediu um empréstimo de US$300 mil ao primo Lu Xiangyang, que trabalhava em finanças, e fundou a BYD em Shenzhen no final de 1994. O nome foi escolhido às pressas — três caracteres chineses aleatórios que não significavam nada juntos. O marketing criaria o significado depois: Build Your Dreams. Construa Seus Sonhos.
"Em Shenzhen, às vezes levava apenas um dia para abrir uma empresa. Nada estava construído — e tudo era possível."
Em poucos anos, a BYD tornou-se a maior fabricante chinesa de baterias recarregáveis, fornecendo para Motorola, Nokia e Samsung. Wang havia provado o conceito. Mas ele queria mais.
2003: a aposta que todo mundo achou idiota
Em janeiro de 2003, a BYD comprou a Qinchuan Automobile Company — uma montadora estatal deficitária por cerca de US$38 milhões. O único ativo valioso era a licença de fabricação de automóveis.
O mercado reagiu mal. As ações da BYD caíram. Analistas questionaram a sanidade de Wang. Uma empresa de baterias não sabia nada sobre carros. Os primeiros modelos saídos da linha de montagem confirmavam as críticas: pintura irregular, portas que não fechavam direito, acabamento ruim. A BYD virou piada nas feiras automobilísticas.
Wang não se abalou. Mandou seus engenheiros desmontarem carros concorrentes peça por peça para entender como funcionavam. Implementou a cultura BYD de fazer internamente tudo que pudesse ser feito internamente — baterias, eletrônica, chassis, software. Essa vertical integração seria, décadas depois, a maior vantagem competitiva da empresa.
2008: Buffett entra — e o mundo começa a prestar atenção
Em setembro de 2008, no auge da crise financeira global, a Berkshire Hathaway de Warren Buffett investiu US$230 milhões na BYD — 10% da empresa. O investimento foi recomendado por Charlie Munger, que descreveu Wang como "uma combinação de Thomas Edison e Jack Welch" e chamou a BYD de "milagre".
O aporte de Buffett funcionou como um selo de credibilidade internacional. Mas Wang não mudou o ritmo. Continuou focado em produto, em engenharia, em bateria. Enquanto a Tesla construía carros para o mercado premium, a BYD desenvolveu o e6 — um dos primeiros elétricos voltados para o mercado de massa.
Entre 2017 e 2019, a empresa quase quebrou. O governo chinês cortou subsídios para veículos elétricos, e a Tesla abriu uma fábrica em Xangai, podendo competir em preço no mercado chinês. As vendas caíram 20%. O lucro foi pela metade por três anos consecutivos.
2020: a Blade Battery muda tudo
Wang voltou às origens. O problema central dos carros elétricos era a bateria — autonomia curta, riscos de incêndio, custo alto. Ele criou uma solução nova: a Blade Battery, com formato de lâmina que permitia maior densidade de energia, melhor dissipação de calor e mais segurança que as baterias convencionais.
O lançamento em 2020 foi o ponto de virada. As vendas explodiram nos anos seguintes. A BYD cresceu de forma que o mercado não havia previsto.
O homem que venceu em silêncio
Enquanto Elon Musk domina manchetes, Wang Chuanfu quase não dá entrevistas. Não tem iate. Não tem mansões. Vive de forma simples em Shenzhen, próximo ao irmão e à cunhada que o criaram. Passa entre 60% e 70% do seu tempo em produto e engenharia. Acorda cedo, trabalha muito, dorme pouco.
Sua filosofia é clara: "Como empresários, não podemos buscar apenas o sucesso comercial. Precisamos refletir sobre como podemos agregar valor à sociedade. Beneficiar as gerações futuras — esta é a causa à qual dedicarei o resto da minha vida."
Em fevereiro de 2025, Wang foi um dos poucos empresários convidados para se sentar na primeira fila ao lado de Xi Jinping numa reunião do Partido Comunista. Sinal de que o homem que começou com US$300 mil e uma fábrica de baterias se tornou, para a China, um símbolo nacional.
O que essa história tem a ver com o investidor brasileiro hoje
A trajetória da BYD é o argumento mais poderoso para quem ainda hesita em olhar para o mercado de energia limpa como oportunidade de investimento.
Em 2003, quando a BYD comprou uma montadora falida para fabricar carros elétricos, ninguém apostaria nisso. O mercado não existia. A tecnologia era precária. O produto era ruim. Vinte anos depois, a empresa vale mais de US$130 bilhões e produz 4 milhões de veículos por ano.
O padrão se repete: as maiores oportunidades de investimento aparecem quando a maioria ainda está rindo. Energia solar no Brasil crescendo 40% ao ano. Hemp industrial em regulamentação. Infraestrutura de recarga elétrica começando a ser construída. São mercados que, daqui a 15 anos, vão parecer óbvios para todo mundo.
A pergunta não é se esses setores vão crescer. A pergunta é se você vai estar posicionado quando o mercado perceber o que já está acontecendo.
Em outubro de 2025, Wang Chuanfu viajou pessoalmente a Camaçari para inaugurar a nova fábrica da BYD — instalada na antiga planta da Ford, com investimento inicial de R$3 bilhões. A meta: dobrar a capacidade de 300 mil para 600 mil veículos por ano, com investimento total acima de R$6 bilhões. A BYD quer estar entre as três maiores montadoras do Brasil até 2028 e liderar o mercado nacional até 2030.