Existe uma pergunta que todo mundo faz quando pensa em comprar um carro elétrico: "Mas onde eu carrego isso?"

É a objeção número um. A que para mais decisões de compra. A que mantém mais gente no carro a combustão do que qualquer outro argumento.

E enquanto essa pergunta era feita, grandes empresas estavam construindo a resposta sem anunciar em nenhuma campanha de marketing. A Volvo firmou parceria com o McDonald's para instalar carregadores elétricos em até 100 restaurantes pelo Brasil. A ALLOS — maior administradora de shoppings do país — criou a KARG em parceria com a WEG e anunciou 600 eletropostos em 58 shoppings em dois anos. A Shell, a Ipiranga, o Mercado Livre — todos começaram a montar redes de carregamento.

O Brasil em 2026 já tem mais de 1.200 estações de recarga espalhadas em shoppings, supermercados, postos de combustível e rodovias. Não é suficiente para o tamanho do país — mas é suficiente para mostrar que a infraestrutura está sendo construída, rápido, e pelo setor privado.

Por que o McDonald's virou ponto de recarga

Parece improvável. Uma rede de fast food como hub de mobilidade elétrica. Mas faz todo sentido quando você pensa na lógica do negócio.

Uma recarga em carregador de 22 kW leva entre 40 minutos e 2 horas para um carro com bateria de 50–70 kWh. Quanto tempo uma pessoa fica no McDonald's comendo? Entre 20 e 45 minutos. O tempo de espera do carro é o tempo de consumo do cliente.

A Arcos Dorados — operadora do McDonald's na América Latina — entendeu isso antes de qualquer concorrente no setor de alimentação. A parceria com a Volvo Car Brasil começou em 2024 com 35 unidades e meta de expansão para 100 restaurantes. Os carregadores têm potência entre 7,4 kW e 22 kW. O serviço é gratuito para clientes. E a estratégia vai além da sustentabilidade no discurso: o cliente que para para carregar o carro precisa entrar no restaurante. É tráfego garantido.

"A comodidade de estar carregando o carro enquanto faz uma atividade que já seria necessária no dia a dia traz mais segurança e liberdade para o condutor. E para o restaurante, traz o cliente."

Os players que estão montando a rede

O McDonald's foi só o mais visível. Nos últimos 18 meses, praticamente todos os grandes varejistas e administradoras de espaço físico entraram no jogo de eletroposto.

Alimentação
McDonald's + Volvo
Parceria Arcos Dorados + Volvo Car Brasil. Carregadores 7,4–22 kW. Serviço gratuito ao cliente.
100
restaurantes previstos · 2025
Shoppings
ALLOS + WEG = KARG
Maior fabricante de carregadores do Brasil. Empresa criada para operar eletropostos dentro de shoppings da ALLOS.
600
eletropostos · 58 shoppings · 2 anos
Postos de combustível
Ipiranga · Shell · BR
Principais redes de postos instalando carregadores em paralelo com os abastecedores convencionais. Pagamento integrado por apps.
+
expansão em todas as regiões
Condomínios e varejo
IPE · Voltbras · EDP
Empresas especializadas que instalam eletropostos em academias, supermercados, condomínios — 82% da receita vai para o proprietário do ponto.
82%
da receita para o proprietário do ponto

O mercado de eletropostos deixou de ser um projeto de governo ou iniciativa isolada de montadora e virou negócio. Negócio real, com margem, com modelo de receita, com disputa de market share. Isso é diferente de qualquer fase anterior da eletrificação no Brasil.

O que acelerou tudo isso: os números de 2024

O gatilho para essa corrida toda foi a explosão de vendas. Em 2024, o Brasil emplacou 177.358 veículos eletrificados leves — um salto de 89% em relação a 2023. São Paulo liderou com mais de 24 mil emplacamentos só na capital, e mais de 4 mil nos primeiros dois meses de 2025.

Quando a quantidade de carros elétricos cresce quase 90% em um ano, o mercado de carregamento acompanha. Não por altruísmo — por matemática de demanda. Cada novo carro elétrico é um cliente potencial que vai precisar carregar em algum lugar fora de casa. E quem tiver o ponto, tem o cliente.

Mercado de EVs no Brasil — aceleração 2024–2026
Veículos eletrificados emplacados em 2024 177.358
Crescimento vs 2023 +89%
Estações de recarga instaladas (2026) +1.200
Participação de EVs nas vendas totais (2024) ~3%
Projeção de participação até 2030 12%
Concentração de carregadores no Sudeste +60%

Como o McDonald's da Espanha já fez o que o Brasil está começando

Para entender onde o Brasil está indo, vale olhar para onde países mais avançados na eletrificação já chegaram. Na Espanha, o McDonald's opera mais de 216 estações, incluindo carregadores de 150 kW que carregam 80% da bateria em 10 a 15 minutos. Na França, a parceria com a Izivia prevê 2.000 pontos de recarga ultrarrápida em 700 restaurantes — carregando em 20 minutos, o tempo de uma refeição.

Na Suécia, o projeto "McCharge" existe desde 2009. Mais de 55 restaurantes com carregadores nos drive-thrus, com sinalização integrada informando disponibilidade de recarga e produtos do menu ao mesmo tempo.

O Brasil está no começo dessa curva. Mas a curva existe, é conhecida, e os números de 2024 mostram que ela está sendo escalada.

O que isso significa para quem opera carro elétrico hoje

A objeção "onde vou carregar?" está sendo desatualizada em tempo real. A resposta em 2026 é: no estacionamento do shopping onde você já faz compras. No McDonald's onde você já para para almoçar. No posto onde você já abastecia gasolina — que agora tem carregador ao lado.

Para quem usa o carro como instrumento de trabalho — motorista de aplicativo, representante comercial, chófer particular — essa infraestrutura muda a matemática completamente. A recarga rápida de 30–50 kW disponível em pontos comerciais já permite recargas parciais durante paradas naturais do dia: almoço, reunião, espera de cliente.

O negócio por trás do eletroposto

Empresas como IPE Carregadores operam em modelo de receita compartilhada: o proprietário do ponto — shopping, academia, supermercado, condomínio — recebe 82% de tudo que o carregador fatura. Sem funcionário, sem mensalidade, instalação simples. O carregador funciona 24h por dia, 7 dias por semana. Para o comércio, é fluxo extra de cliente + receita passiva. Para o motorista elétrico, é mais um ponto no mapa. O mercado de eletropostos não é infraestrutura — é um novo modelo de negócio embutido dentro de outros negócios.

O gargalo que ainda existe — e onde está a oportunidade

Mais de 60% dos carregadores instalados no Brasil estão no Sudeste. Norte, Nordeste e Centro-Oeste ainda têm "ilhas" de mobilidade elétrica — concentrações em capitais sem continuidade nas rodovias interligando os estados.

Isso é problema real para quem precisa fazer longas distâncias. Mas é também onde está a maior oportunidade de quem quiser entrar no mercado de eletropostos antes da saturação. As capitais já têm disputa. O interior ainda não.

E o modelo de negócio — receita compartilhada, instalação por terceiros, sem custo de operação para o proprietário — é precisamente o tipo de estrutura que permite ao pequeno empreendedor entrar nesse mercado sem ser uma grande empresa de energia.


A pergunta "onde vou carregar?" foi a principal barreira de adoção do carro elétrico no Brasil. Ela ainda existe. Mas a velocidade com que está sendo respondida — por McDonald's, por shoppings, por postos de gasolina, por condomínios — é o sinal mais claro de que a transição não está mais esperando permissão de ninguém para acontecer.

Está acontecendo no estacionamento. Enquanto você come um Big Mac.